Fique Por Dentro
Em um momento em que o sistema alimentar global é cada vez mais questionado por seus impactos climáticos, a Beyond Meat voltou a colocar dados concretos no centro da conversa. A empresa californiana divulgou novos resultados ambientais do Beyond Burger IV, a versão mais recente de seu hambúrguer vegetal, reforçando algo que a ciência vem mostrando há anos... trocar carne bovina por alternativas vegetais pode reduzir drasticamente o custo ambiental da alimentação.
Lançada no início de 2024, a quarta geração dos produtos da marca (Beyond Burger IV) vai além de ajustes cosméticos. A reformulação substitui os óleos de canola e coco por óleo de abacate, incorpora fava e lentilha vermelha como novas fontes proteicas e busca um equilíbrio mais refinado entre sabor, perfil nutricional e sustentabilidade.
Essa evolução não é apenas sensorial ou nutricional. Ela também se reflete diretamente na pegada ambiental do produto.
O que pesa mais no prato e no planeta?
De acordo com a nova Análise de Ciclo de Vida (ACV), publicada no Relatório de Responsabilidade Corporativa 2024, o Beyond Burger IV apresenta reduções expressivas de impacto quando comparado a um hambúrguer bovino convencional de 113 g (80/20), produzido nos Estados Unidos.
Os números falam por si:
• 88% menos emissões de gases de efeito estufa
• 92% menos consumo de água
• 97% menos uso de terra
• 28% menos uso de energia não renovável
Mesmo quando o cálculo inclui emissões associadas à mudança de uso da terra, um fator crítico na pecuária, o hambúrguer vegetal ainda gera 86% menos gases de efeito estufa do que a carne bovina.
Esses dados foram estimados por especialistas independentes e seguem as normas internacionais (ISO) para estudos de ACV, o que confere robustez científica aos resultados.
De onde vêm os impactos do Beyond Burger IV
Ao contrário do senso comum, a principal fonte de impacto ambiental do hambúrguer vegetal não está na fábrica, mas na produção dos ingredientes.
A produção de ingredientes responde por:
• 34,9% das emissões totais
• 90% do uso de terra
• 75% do consumo de água
Entre eles, a proteína de ervilha se destaca como o maior contribuinte para o uso de terra, enquanto o óleo de abacate lidera o consumo hídrico, um reflexo conhecido da agricultura irrigada dessa cultura. Ainda assim, mesmo esses impactos são muito inferiores aos da cadeia da carne bovina, fortemente associada ao desmatamento, uso intensivo de água e emissões de metano.
O transporte refrigerado, tanto de insumos quanto da distribuição final, representa cerca de 20% do impacto climático do produto, enquanto as embalagens respondem por aproximadamente 17% das emissões. Esses dados reforçam um ponto essencial de que mesmo alimentos vegetais industrializados têm impacto, mas a escala é incomparável à da pecuária.
Transparência climática em tempos difíceis
A divulgação do estudo ocorre em um dos períodos mais desafiadores da história da Beyond Meat. A empresa enfrenta retração nas vendas, desaceleração do mercado de carnes vegetais nos Estados Unidos e forte volatilidade de suas ações. Ainda assim, escolheu ampliar a transparência.
Em 2024, a Beyond Meat publicou um inventário completo de emissões e reportou reduções relevantes:
• -11% nas emissões de escopo 1 (o que a empresa emite diretamente)
• -12% nas emissões de escopo 2 (o que ela causa ao consumir energia)
• -31% nas emissões de escopo 3 (tudo o que vem antes e depois do produto na cadeia de suprimentos)
No mesmo ano, a empresa realizou sua primeira submissão ao CDP (Carbon Disclosure Project), o maior banco de dados global de divulgação ambiental corporativa.
Paralelamente, a marca vem diversificando seu portfólio, lançando produtos como um bife feito a partir de micélio (raízes de cogumelos) e reposicionando sua comunicação para se afastar da ideia de “carne ultraprocessada”, aproximando-se de formulações mais simples e ingredientes reconhecíveis, como o novo Beyond Ground à base de fava, com apenas quatro ingredientes.
Brasil no espelho da proteína vegetal: o que está acontecendo por aqui?
O Brasil tem um dos maiores consumos de carne bovina per capita do mundo, e isso reflete diretamente na nossa pegada ambiental alimentar. Estudos científicos já mostraram que a dieta dos brasileiros que mais consomem carne bovina tem impactos de água e carbono de três a quatro vezes maiores do que a daqueles que menos consomem esse alimento... um sinal claro de que escolhas alimentares fazem diferença ecológica concreta.
Ainda de acordo com pesquisas epidemiológicas com dados nacionais, reduzir o consumo de carne bovina e de alimentos ultraprocessados combinados, pode diminuir a pegada de carbono e de água da alimentação brasileira em mais de 20%, um ganho duplo em saúde e meio ambiente.
O mercado plant-based cresce no Brasil (mas ainda é pequeno)
As alternativas vegetais à carne, como hambúrgueres e “carnes” à base de plantas, já estão ganhando espaço entre os brasileiros:
• 26% dos brasileiros das classes A, B e C consomem carnes vegetais pelo menos uma vez ao mês, e 36% reduziram o consumo de carne vermelha nos últimos 12 meses, muitos por motivos de saúde ou custo.
• Segundo o GFI Brasil (The Good Food Institute Brazil), uma organização que monitora o setor plant-based, o varejo nacional movimentou cerca de R$ 1,1 bilhão em 2023, com crescimento de mais de 38% nas vendas de substitutos de carne e frutos do mar em relação ao ano anterior, um indicativo de que o consumidor está experimentando mais essas alternativas.
Embora ainda represente uma fração do mercado total de proteínas no Brasil, esse crescimento é um sinal claro de transição, especialmente entre consumidores mais jovens e daqueles preocupados com saúde, meio ambiente e bem-estar animal.
Nutrição e qualidade dos produtos vegetais
Um estudo recente da Universidade Federal de São Paulo mostrou que cerca de 80% das carnes vegetais vendidas no Brasil têm boa qualidade nutricional segundo indicadores estabelecidos pela ANVISA... um resultado que supera o desempenho dos produtos de origem animal em muitos casos.
Esses alimentos plant-based frequentemente se destacam por oferecer mais fibras e proporções de gordura mais equilibradas do que as carnes tradicionais. Ainda assim, como qualquer produto ultraprocessado, devem ser consumidos com equilíbrio dentro de uma dieta geral rica em alimentos integrais.
E o impacto ambiental no Brasil?
Não existe ainda uma série de dados de ACVs específicos do Brasil para carnes, como os divulgados pela Beyond Meat nos EUA. Mas há indicadores robustos do alto impacto ambiental da carne bovina aqui no país:
→ A pecuária é responsável por grande parte das emissões de gases de efeito estufa, consumo de água e uso de terra relacionados à alimentação no Brasil especialmente na Amazônia, onde a produção pecuária impulsiona grande parte do desmatamento e de conversão de biomas naturais.
A lógica ambiental observada globalmente, de que alternativas vegetais têm pegadas de carbono, uso de terra e água muito menores do que a carne bovina, é válida aqui também, mesmo que ainda não tenhamos muitas ACVs completas feitas com dados brasileiros. Dados internacionais mostram reduções médias de até 90% ou mais no impacto ambiental quando proteínas vegetais substituem carne bovina na dieta.
O que tudo isso significa para o brasileiro comum?
✅ Escolhas alimentares importam e diminuir o consumo de carne bovina e incorporar mais proteínas vegetais ajuda a reduzir não só o impacto ambiental da sua dieta, mas também fatores de risco associados às doenças crônicas.
✅ O movimento plant-based no Brasil está ganhando força, impulsionado por preocupações com saúde, custos e consciência ambiental.
✅ Produtos vegetais podem ser nutritivos, sem anular a importância de uma dieta rica em alimentos minimamente processados.
✅ O Brasil ainda precisa de mais estudos locais para quantificar com precisão a diferença de impacto ambiental entre produtos vegetais nacionais e carnes convencionais embora o padrão global de redução de impacto tende a se aplicar também por aqui.
O que esse debate realmente revela
Mais do que promover uma marca, os dados do Beyond Burger IV ajudam a iluminar uma questão maior: não existe alimentação sem impacto ambiental, mas sim uma diferença enorme entre as escolhas.
Mesmo com processamento, transporte refrigerado e embalagem plástica, um hambúrguer vegetal ainda exige menos terra, menos água e emite muito menos gases de efeito estufa do que um hambúrguer de carne bovina. Em um planeta pressionado por crises climáticas, hídricas e de biodiversidade, essa diferença deixa de ser abstrata e se torna ética, nutricional e política.
No fim das contas, o que está em jogo não é apenas o futuro de uma empresa, mas o modelo de proteína que escolhemos colocar no centro do prato e do sistema alimentar.
Fontes:
da Cruz GL, da Costa Louzada ML, Silva JT da, et al. The environmental impact of beef and ultra-processed food consumption in Brazil. Public Health Nutrition. 2024;27(1):e34.
https://doi.org/10.1017/S1368980023002975
The Good Food Institute Brazil. (2020). O consumidor brasileiro e o mercado plant-based.
https://gfi.org.br/proteinas-vegetais/
Penna Franca, P. A., Duque-Estrada, P., da Fonseca e Sá, B. F., van der Goot, A. J., & Pierucci, A. P. T. R. (2022). Meat substitutes - past, present, and future of products available in Brazil: changes in the nutritional profile. Future Foods, 5, Article 100133.
https://doi.org/10.1016/j.fufo.2022.100133
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