Fique Por Dentro
À primeira vista, o documento Dietary Guidelines for Americans 2025-2030 (o novo guia alimentar americano) parece um avanço. Ele fala em reduzir ultraprocessados, priorizar alimentos integrais, cozinhar mais em casa e valorizar alimentos naturais. A expressão “eat real food” (coma comida de verdade) aparece como um mantra, e isso isoladamente, é algo difícil de criticar.
→ O problema começa quando se olha com uma lupa técnica para o que o documento considera “comida de verdade”.
Ao longo das páginas, fica claro que a espinha dorsal do guia não conta com os vegetais, frutas, leguminosas e grãos integrais, como apontam décadas de pesquisas em epidemiologia nutricional. A base construída ali é feita de proteína animal, laticínios integrais e gorduras de origem animal.
→ O discurso é moderno, mas a estrutura nutricional é antiga.
É justamente por isso que a seguir, destacamos de forma objetiva os trechos do documento que se afastam do que há de mais consistente na evidência científica atual:
1. A centralidade exagerada da proteína
Logo no início, o guia estabelece metas de proteína entre 1,2 e 1,6 g/kg/dia para a população geral (pág. 2 - DGA)
→ Essa recomendação é típica de atletas, idosos frágeis ou situações clínicas específicas, não de adultos saudáveis.
A recomendação oficial (RDA) continua sendo 0,8 g/kg/dia. A maioria das pessoas já consome proteína acima disso. Empurrar a população inteira para um consumo elevado não traz benefício comprovado, mas favorece indiretamente, o aumento do consumo de carnes, ovos e laticínios.
→ Não é uma recomendação fisiológica. É uma recomendação que direciona o padrão alimentar.
2. Laticínios integrais como pilar da dieta
O guia recomenda três porções diárias de laticínios integrais (pág. 2 - DGA), tratando-os como alimento central. O problema é que não há consenso científico de que laticínios integrais sejam superiores, e muito menos indispensáveis. Sem contar que diversas diretrizes priorizam redução de gordura saturada.
Cálcio, proteína e vitaminas podem ser obtidos de diversas outras fontes. As populações mais longevas do planeta não apresentam alto consumo de laticínios. Aqui, a escolha parece mais cultural e agrícola do que nutricional.
3. Carne vermelha tratada como alimento neutro
O guia inclui carne vermelha entre as opções desejáveis de proteína (pág. 2 - DGA), ignorando que hoje existe forte consenso associando seu consumo ao aumento do risco de câncer colorretal, doenças cardiovasculares e diabetes tipo 2. A OMS classifica carnes processadas como carcinogênicas.
→ Ainda assim, o documento trata carne vermelha como alimento neutro e desejável.
4. Manteiga e sebo como “gorduras saudáveis”
Na seção de gorduras, o texto coloca manteiga e sebo bovino como opções válidas (pág. 3 - DGA).
→ Isso contraria décadas de evidência que priorizam gorduras insaturadas como azeite, nozes, sementes e abacate.
É um retorno a uma visão nutricional já superada. Sebo e manteiga são fontes concentradas de gordura saturada, associadas a pior perfil lipídico.
5. Vegetais, frutas e grãos em papéis secundários
As metas sugeridas são modestas: 3 porções de vegetais, 2 de frutas e 2-4 de grãos integrais por dia (pág. 3 - DGA)
→ Isso é muito abaixo do que recomendam OMS, Harvard e os padrões alimentares associados à longevidade.
→ As populações mais saudáveis do mundo têm base alimentar em grãos integrais e leguminosas.
→ Justamente os grupos alimentares mais protetores aparecem como secundários. Aqui, vegetais viram coadjuvantes enquanto proteína animal e laticínios viram protagonistas.
6. A crítica aos refinados que vira uma guerra silenciosa contra carboidratos
O guia acerta ao recomendar a redução de ultraprocessados, mas o problema é que no texto, alimentos como pão, crackers e outros produtos à base de grãos acabam sendo colocados no mesmo patamar dos ultraprocessados. Essa mistura cria uma mensagem implícita perigosa de que o problema não são os produtos industriais, mas os carboidratos em si.
→ Essa construção, pode conduzir o leitor para uma lógica low-carb disfarçada (pág. 4 - DGA).
7. Seção de vegetarianos e veganos é tecnicamente falha e alarmista
Lista enorme de possíveis deficiências em veganos (pág. 9 - DGA)
Problemas:
- Exagera deficiências que não aparecem em estudos populacionais de veganos bem planejados
- Coloca proteína como risco (não é)
- Ignora que dietas onívoras também são deficientes em fibras, folato, magnésio, potássio
→ Não cita que dietas veganas estão associadas a:
- Menor IMC
- Menor risco cardiovascular
- Menor risco de diabetes
- Menor risco de câncer
→ A seção sobre veganos e vegetarianos é tecnicamente frágil e pouco informativo.
8. Recomendações infantis centradas em carne, laticínios e ovos
Exemplos de alimentos para bebês: carne, laticínios integrais, etc. (pág. 7 - DGA).
Ignora que:
✔ Leguminosas, tofu, pastas de sementes são excelentes opções
✔ Muitos países já reconhecem introdução plant-based segura
9. O documento fala de “real food”, mas promove padrão alimentar pró-pecuária
A narrativa é:
real food = carne + laticínios + ovos + gorduras animais
→ Isso não é definição científica. É definição agrícola/política.
10. O microbioma é citado, mas suas principais fontes alimentares são minimizadas
O guia fala sobre saúde intestinal e microbioma (pág. 2 - DGA), mas não enfatiza leguminosas, grãos integrais e fibras como base alimentar. É uma incoerência conceitual clara.
→ Uma narrativa política em um documento que deveria ser técnico.
11. Ausência completa de evidência sobre dietas baseadas em plantas e longevidade
Nenhuma menção a:
• Adventist Health Study - https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23836264/
• EPIC-Oxford - https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35934687/
• Blue Zones - https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35780634/
• Meta-análises sobre plant-based diets - https://www.frontiersin.org/journals/nutrition/articles/10.3389/fnut.2025.1518519/full
→ Isso é uma omissão científica muito relevante.
12. Viés político explícito no texto de abertura
A introdução do documento (pág. 1 - DGA) traz uma linguagem ideológica incomum para diretrizes nutricionais. Guias alimentares deveriam se apoiar em evidência científica e não em narrativas políticas.
O problema central:
O guia vende a ideia de “comida de verdade”, mas redefine esse conceito como:
carne + laticínios + ovos + gorduras animais
Enquanto a ciência da longevidade mostra que os padrões alimentares mais protetores são baseados em:
vegetais + frutas + leguminosas + grãos integrais + sementes + oleaginosas
→ A pirâmide foi invertida.
Reduzir ultraprocessados é um passo importante e incentivar comida caseira também. Mas usar essa retórica para recolocar proteína animal, laticínios integrais e gorduras saturadas no centro da alimentação é um retrocesso disfarçado de modernidade.
→ O discurso é novo. A base científica, não.
Se o objetivo real é reduzir doenças crônicas, aumentar longevidade e melhorar a saúde pública, as evidências apontam para um caminho claro: dietas predominantemente baseadas em plantas.
→ Ignorar isso em um guia alimentar nacional não é apenas uma omissão. É um descuido.
Fonte:
https://cdn.realfood.gov/DGA.pdf
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