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Ciência e Estudos

Leite, Ossos e Longevidade: O Que os Estudos Realmente Mostram

Décadas de pesquisas questionam uma das mais conhecidas promessas da alimentação

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Durante décadas o leite foi apresentado como um dos principais aliados da saúde óssea. A justificativa parecia simples... Por ser uma fonte importante de cálcio, seu consumo ajudaria a aumentar a massa óssea e, consequentemente, reduzir o risco de osteoporose e fraturas no futuro.

Porém, essa relação começou a ser questionada quando pesquisadores passaram a analisar o consumo de leite durante longos períodos. Os resultados levantaram uma questão incômoda. Será que beber mais leite realmente significa ter ossos mais fortes?

Consumir mais leite significa ter ossos mais fortes?

O leite contém cálcio, fósforo e outros nutrientes importantes para o tecido ósseo. Durante a infância e a adolescência, uma alimentação adequada é fundamental para alcançar uma boa massa óssea. O problema surge quando essa lógica é automaticamente estendida para a vida adulta.

Pesquisadores de Harvard acompanharam homens e mulheres para investigar se o maior consumo de leite durante a adolescência estaria relacionado a menor risco de fratura de quadril no futuro. O resultado não confirmou essa expectativa. Entre os homens, houve até uma associação limítrofe com maior risco de fratura. Nas mulheres, o maior consumo não esteve associado a uma redução significativa desse risco.

Isso não significa que o cálcio seja irrelevante. Ele continua sendo essencial para a saúde óssea. O que os resultados questionam é a ideia de que aumentar especificamente o consumo de leite seja suficiente para garantir proteção contra fraturas.

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A hipótese da galactose

Foi diante desse paradoxo que surgiu uma hipótese que despertou interesse científico. A lactose do leite é formada por glicose e galactose. Durante a digestão, esses dois açúcares são separados e absorvidos pelo organismo. A galactose chamou atenção porque pessoas com galactosemia, uma rara condição genética que prejudica sua metabolização, podem desenvolver diversas complicações, incluindo alterações ósseas.

Além disso, a galactose é utilizada em experimentos com animais para provocar alterações associadas ao envelhecimento, como estresse oxidativo, inflamação e degeneração de diferentes órgãos. A partir daí surgiu uma pergunta... Se doses elevadas de galactose podem produzir efeitos adversos em animais, será que a exposição habitual à galactose proveniente do leite poderia contribuir para alguns dos resultados observados em seres humanos? É uma hipótese biologicamente plausível, mas ainda não comprovada.

Essa distinção é fundamental pois resultados obtidos em animais não podem ser automaticamente transferidos para seres humanos. Há estudos que reconhecem que seus resultados observacionais não podem provar que a galactose seja a responsável pelos efeitos encontrados e os autores defendem a necessidade de pesquisas experimentais para testar essa possibilidade.

Imagem Uma-molécula-do-leite-despertou-uma-nova-hipótese

O grande estudo sueco

Para investigar a relação entre consumo de leite, fraturas e mortalidade, pesquisadores suecos acompanharam mais de 100 mil homens e mulheres durante até duas décadas.

Entre as mulheres, quanto maior o consumo de leite, maior foi o risco observado de mortalidade. As participantes que consumiam três ou mais copos por dia apresentaram quase o dobro do risco de morrer durante o período de acompanhamento em comparação com aquelas que consumiam menos de um copo. Também foram observadas maiores taxas de doenças cardiovasculares, câncer e fraturas entre as mulheres que consumiam mais leite.

A relação com as fraturas chamou especialmente a atenção. Mulheres que bebiam mais leite apresentaram maior risco de fratura de quadril, justamente o contrário do que seria esperado caso o alimento exercesse uma forte proteção sobre os ossos. Entre os homens, o maior consumo também esteve associado a maior mortalidade, mas não foi observada a mesma relação clara com fraturas.

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Leite não é igual a todos os laticínios

Quando os pesquisadores analisaram diferentes tipos de laticínios, encontraram outro dado interessante. O padrão observado para o leite não se repetiu da mesma maneira com produtos fermentados, como iogurte e leite fermentado. Isso levantou a possibilidade de que a composição do alimento desempenhe algum papel. A fermentação modifica suas características e pode alterar a quantidade e a disponibilidade de lactose.

Outra possibilidade envolve a gordura saturada, especialmente presente no leite integral. Em um estudo experimental citado pelos pesquisadores, os participantes apresentaram níveis mais elevados de um marcador relacionado à inflamação durante o consumo de laticínios não fermentados, em comparação com períodos de consumo de produtos fermentados ou com baixo teor de gordura. Ainda não existe uma resposta definitiva sobre qual mecanismo poderia explicar essas diferenças.

O que acontece quando o leite é substituído?

Pesquisadores de Harvard analisaram uma questão igualmente importante. Não apenas o que acontece quando consumimos laticínios, mas também o que ocorre quando eles são substituídos por outros alimentos. Os resultados mostraram que a fonte escolhida para essa substituição faz diferença.

Trocar laticínios por carne, frango ou peixe não apresentou o mesmo benefício observado quando a substituição foi feita por fontes vegetais de proteína. A troca por alimentos vegetais esteve associada a menor risco de mortalidade. Esse resultado reforça um princípio importante da nutrição. Não basta retirar um alimento da dieta. É preciso considerar aquilo que entra em seu lugar.

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Frutas e vegetais podem fazer diferença?

Os pesquisadores também levantaram outra possibilidade. Se a galactose estiver relacionada ao estresse oxidativo e à inflamação, será que uma alimentação rica em antioxidantes poderia reduzir parte desses efeitos? Em estudos com animais, frutas como mirtilos conseguiram atenuar alguns danos provocados pela galactose.

Nos dados humanos, mulheres que consumiam muito leite e também cinco ou mais porções de frutas e vegetais por dia apresentaram menor excesso de mortalidade do que aquelas com baixa ingestão desses alimentos. Ainda assim, o risco permanecia superior ao observado entre as mulheres que consumiam menos leite. Além disso, a maior ingestão de frutas e vegetais não eliminou o aumento do risco de fratura de quadril.

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E as recomendações sobre leite?

Esses resultados também levantam questões sobre a forma como as recomendações alimentares são construídas. Organizações dedicadas à saúde óssea continuam defendendo o papel dos laticínios, do cálcio e, em determinadas situações, da suplementação. Ao mesmo tempo, pesquisadores apontam que parte da literatura sobre laticínios e osteoporose apresenta vínculos com a indústria.

Isso não significa que uma pesquisa financiada pela indústria esteja automaticamente errada. Significa que potenciais conflitos de interesse precisam ser conhecidos e considerados na avaliação das evidências. Em 2019, o Canadá adotou uma abordagem diferente ao formular suas novas diretrizes alimentares, dando maior ênfase à literatura científica independente e valorizando frutas, vegetais, cereais integrais e fontes de proteína vegetal.

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O que podemos concluir?

Os estudos não permitem afirmar que o leite cause osteoporose, câncer ou morte prematura. Também não comprovam que a galactose seja responsável pelos resultados observados. O que eles mostram é que a relação entre leite, ossos e longevidade é muito mais complexa do que a antiga ideia de que beber mais leite necessariamente significa ter ossos mais fortes. O cálcio continua sendo importante, mas a saúde óssea depende de diversos fatores, incluindo vitamina D, proteína adequada, atividade física, massa muscular, estado hormonal e qualidade geral da alimentação.

Talvez a principal lição seja justamente essa. Em vez de procurar um alimento indispensável para proteger os ossos, faz mais sentido olhar para o conjunto da dieta. Uma alimentação variada, rica em frutas, vegetais, leguminosas, cereais integrais, sementes, castanhas e outras fontes vegetais de nutrientes pode oferecer uma estratégia muito mais ampla para a saúde.

Imagem Saúde-não-depende-de-um-único-alimento

A ciência ainda precisa esclarecer qual é exatamente o papel do leite, da galactose, da gordura saturada e da fermentação nessa equação. Até lá, a melhor abordagem é avaliar as evidências com cuidado, sem transformar o leite em vilão, mas também sem tratar sua antiga reputação como uma verdade absoluta.


Fontes:

Assista: https://nutritionfacts.org/video/friday-favorites-why-do-milk-drinkers-live-shorter-lives-on-average/

Assista: https://nutritionfacts.org/video/flashback-friday-is-milk-good-for-our-bones/


Todos os artigos científicos mencionados estão disponíveis na descrição do vídeo. Para acessá-los, utilize a aba "Sources Cited" (Fontes Citadas) ao navegar pelo computador ou a aba "Sources" (Fontes) na versão mobile (celular).

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