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Essencial e Descomplicado

Ultraprocessados: O que Realmente Estamos Colocando no Prato?

Entender o grau de processamento pode ser mais importante do que contar calorias

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O ideal seria que nossas refeições girassem em torno de alimentos vegetais in natura ou minimamente processados. Frutas, legumes, grãos, feijões, sementes, comida que você reconhece sem precisar de explicação no rótulo. São esses alimentos que historicamente sustentaram populações com menores taxas de doenças crônicas e melhor qualidade de vida.

De fato porém, o cenário mudou bastante. Grande parte do que colocamos hoje nos carrinhos do supermercado não é apenas processado, mas ultraprocessado. São formulações industriais criadas para serem práticas, altamente palatáveis e com longa vida de prateleira. Produtos pensados para durar meses armazenados, resistir ao transporte, manter textura e sabor estáveis. Nem sempre pensados para favorecer a nossa saúde a longo prazo.

Uma breve história: da carência ao excesso

A nutrição moderna nasceu há cerca de cem anos, tentando resolver problemas de deficiência nutricional. Faltava energia, faltavam vitaminas e nesse contexto, o açúcar era visto como solução prática e barata de calorias.

Com o passar das décadas, o cenário mudou. O desafio deixou de ser a deficiência e passou a ser o excesso. Obesidade, doenças cardiovasculares e outras condições crônicas começaram a crescer. A preocupação agora é com o exagero de calorias, gorduras saturadas, açúcares e sódio. Foi nesse momento que surgiram distorções curiosas. Produtos altamente industrializados, como cereais açucarados com fibra adicionada, passaram a ser promovidos como “saudáveis” por conterem um nutriente específico.

A ciência então começou a dar um passo além e saiu da visão isolada dos nutrientes como gordura, açúcar ou proteína e passou a observar o alimento na sua forma completa. Mais recentemente, o foco avançou ainda mais incorporando um fator decisivo: o grau de processamento e o quanto aquele alimento foi transformado industrialmente antes de chegar ao prato.

Imagem Hoje-grande-parte-do-que-levamos-para-casa-não-é-apenas-processado-é-ultra-processado-formulado-para-durar-meses-na-prateleira

Do alimento ao processamento: a virada de chave

As diretrizes alimentares passaram a incentivar mais vegetais, frutas, leguminosas, cereais integrais e oleaginosas. Mas existe uma diferença enorme entre uma sopa caseira de legumes e uma versão industrial cheia de sal, aromatizantes e estabilizantes.

Foi nesse contexto que o professor Carlos Monteiro do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (NUPENS) da Universidade de São Paulo (USP) apresentou uma proposta que mudou o debate sobre alimentação. Em vez de classificar os alimentos apenas pelo teor de nutrientes, ele sugeriu organizá-los de acordo com o grau e a finalidade do processamento industrial. Assim nasceu o Sistema NOVA. A grande inovação do NOVA foi chamar atenção para os chamados alimentos ultraprocessados como uma categoria distinta, com potenciais efeitos negativos que vão além do conteúdo isolado de nutrientes.

O sistema NOVA organiza todos os alimentos e produtos alimentícios em quatro grupos principais, com base na natureza, extensão e finalidade do processamento industrial:

🔸Grupo 1 - Alimentos in natura ou minimamente processados: Frutas, verduras, legumes, leguminosas, grãos, carnes e peixes em sua forma simples. Podem estar frescos, congelados, secos ou cozidos, desde que sem aditivos prejudiciais.

🔸Grupo 2 - Ingredientes culinários:  Sal, óleos, açúcar e gorduras usados para preparar alimentos.

🔸Grupo 3 - Alimentos processados: Produtos feitos ao adicionar ingredientes do Grupo 2 a alimentos do Grupo 1. Exemplos: conservas, queijos, pães tradicionais.

🔸Grupo 4 - Alimentos ultraprocessados: Formulações industriais que além de sal, açúcar, óleos e gorduras, contêm substâncias que não usamos em casa: aromatizantes, corantes, edulcorantes artificiais, emulsificantes e outros aditivos criados para imitar, intensificar ou mascarar características dos alimentos.

A ideia central é simples e poderosa: “O alimento, não os nutrientes, é a unidade fundamental da nutrição.”

Imagem A-ciência-deixou-de-olhar-apenas-para-nutrientes-isolados-e-passou-a-considerar-o-alimento-como-um-todo-e-o-grau-de-processamento

O que define um alimento ultraprocessado?

Algumas características ajudam a identificar:

• Não podem ser reproduzidos em uma cozinha doméstica devido a transformações químicas ou físicas industriais.

• Normalmente contêm pouco ou nenhum alimento integral.

• São prontos para consumir ou apenas aquecer.

• São frequentemente muito gordurosos, salgados ou açucarados e pobres em fibras e outros nutrientes.

• Incluem aditivos para cor, sabor, textura e conservação que imitam qualidades de alimentos integrais.

→ Exemplos típicos: salgadinhos de pacote, sorvetes industriais, refrigerantes, balas, batatas fritas, hambúrgueres processados, salsichas, nuggets de frango e de peixe.

Às vezes, a embalagem mostra mais fruta na imagem do que existe de fato dentro do produto.

Por que isso importa para a saúde?

A importância do rótulo "ultraprocessado" vai além de dizer que o alimento tem muito açúcar ou gordura. Antes do NOVA, o processamento era pouco discutido em políticas públicas e educação nutricional. Hoje é um tema de pesquisa ativa com estudos que associam maior consumo de ultraprocessados a riscos elevados de obesidade, doenças cardiovasculares e outras condições, embora as investigações continuem para esclarecer os mecanismos e a causalidade.

A hipótese científica é que os efeitos negativos podem envolver:

• A combinação de múltiplos aditivos

• Alterações na saciedade e no controle do apetite

• Estrutura física do alimento, que influencia mastigação e absorção

• Possíveis contaminantes provenientes das embalagens

Imagem Cozinhar-é-uma-das-estratégias-mais-eficazes-para-reduzir-o-consumo-de-alimentos-ultra-processados

Como aplicar esse conhecimento no dia a dia

Priorize alimentos do Grupo 1: frutas, verduras, legumes, grãos integrais, feijões, lentilhas, nozes e sementes.

Cozinhe mais: refeições preparadas em casa tendem a usar menos aditivos e menos ingredientes industriais.

Leia rótulos com atenção: evite produtos com listas longas de ingredientes, nomes químicos, corantes e emulsificantes.

Prefira versões simples: iogurte natural sem aromatizantes, pães integrais com poucos ingredientes, e conservas com baixo teor de sódio.

Não confunda embalagem com qualidade: nem tudo que está na caixa é ultraprocessado, mas o grau de transformação importa.

Imagem Antes-de-comprar-vale-a-pergunta-isso-ainda-se-parece-com-comida-de-verdade

Mais do que contar calorias ou focar apenas em um nutriente isolado, faz sentido olhar para o alimento como um todo e para o quanto ele foi modificado industrialmente. Reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados e resgatar preparações mais simples é uma estratégia prática, realista e sustentável para melhorar a saúde ao longo do tempo.

No fim das contas, a pergunta que vale fazer no supermercado é simples: isso ainda se parece com comida de verdade?


Fonte: 

Vídeo: https://nutritionfacts.org/video/what-are-ultra-processed-foods/


Todos os artigos científicos mencionados estão disponíveis na descrição do vídeo. Para acessá-los, utilize a aba "Sources Cited" (Fontes Citadas) ao navegar pelo computador ou a aba "Sources" (Fontes) na versão mobile (celular).

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